Sobrevivendo do cinema há 91 anos, Cabaceiras (PB) vira cenário deserto

Imagem: Reprodução

Se João Grilo perguntasse a Chicó por que o ano de 2020 virou do avesso, a resposta deste continuaria a mesma: “Não sei. Só sei que foi assim”.

O bordão do contador de “causos” interpretado por Selton Mello em “O Auto da Compadecida” resume as incertezas desse período de pandemia, em que mais de 156 mil brasileiros já perderam suas vidas para a Covid-19.

O personagem de Mello e o de Matheus Nachtergaele também encontrariam uma outra Cabaceiras, a cidade paraibana que serviu de locação para o longa do diretor Guel Arraes feito a partir da peça homônima de Ariano Suassuna (1927-2014).

As filmagens da famosa produção não saem da lembrança dos habitantes dali, assim como o barulho da claquete e o grito de “Ação!”.

O “Auto”¦” não foi o único filme feito na cidade que não tem nenhuma sala de cinema, localizada a 194 km de João Pessoa.

Há 91 anos, Cabaceiras serve de locação para produções audiovisuais – no total, 52 foram feitas ali, entre filmes, séries e novelas. A primeira foi o curta “Sob o Céu Nordestino”, em 1929.

Mas, agora, a “Roliúde” é um cenário vazio. O município no Cariri paraibano fechou seus acessos para pessoas de fora por não ter infraestrutura para atender os casos mais graves de Covid-19.

Mesmo assim, 127 moradores foram infectados pelo novo coronavírus. Até a quarta (21), a cidade não tinha nenhum óbito e dez pessoas apresentavam os sintomas da doença.

A maquiadora Cemirâmys da Silva, 20, e a repositora de supermercado Rauênia Araújo, 23, são casadas e contraíram o vírus. “Sentíamos muita dor na cabeça e nas pernas. Essa doença cria um cansaço incomum”, lembra Silva.

Com 5.661 habitantes, Cabaceiras é um cenário ideal para locações cinematográficas por reunir belos e conservados casarões multicoloridos do século 18, paisagem de caatinga, povo hospitaleiro, uma luz natural única e pela escassez de chuva.

Mércia de Farias, chefe do departamento de turismo local, conta que, antes da pandemia, a cidade se preparava para sediar uma produção com elenco formado apenas por moradores.

Contar com a participação dos cabaceirenses nas filmagens é uma espécie de lei, diz a guia turística Robéria Cordeiro, 32. “A cidade recebe o filme, mas é preciso chamar os moradores para as produções. Quem não está como figurante trabalha na cozinha, no transporte e no figurino”, diz ela, que também trabalha no museu da cidade.

Não ter gente de fora circulando por Cabaceiras é uma tristeza para José Nunes de Araújo Neto,o Zé de Cila, 75, a figura mais ilustre do local. O comerciante vive nos fundos de sua loja de artesanato onde se acha de tudo –de chapéu de “corno” à estátua de padre Cícero (1844-1934).

Zé de Cila ganhou letra de música e virou uma celebridade local após ser dublê do ator Rogério Cardoso (1937-2003), intérprete do famoso padre João em “O Auto da Compadecida”.

O comerciante está triste pelo sumiço dos turistas que o abordavam com frequência pedindo para ele vestir a batina do personagem. “Eu tirava fotos, dava entrevistas, era uma beleza. Mas essa pandemia mudou tudo. Tive que fechar a loja e pensei que não fosse sobreviver” conta.

Do outro lado da rua, quem reclama do momento e chora é a tapioqueira Jane Aparecida da Silva, 50, figurante em filmes como “Canta Maria” (2006) e “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005). Ela entrou em desespero quando precisou fechar sua barraca e parar de vender a ‘bodioca’, a tapioca recheada de carne de bode, uma iguaria que inventou há 15 anos.

“Me aperreei muito, entrei em depressão. Houve dia em que eu não tinha dinheiro nem para comer”, afirma.

O bode é o astro de Cabaceiras. Sua figura emoldura um monumento na rua principal da cidade e também inspira um evento anual em que o caprino reina, literalmente. A festa do “Bode Rei” promove, por três dias, um “desfile” para a escolha do novo animal.

A edição deste ano, que marcaria a abertura do São João na região do Cariri, foi cancelada pela primeira vez devido à pandemia. “Foi um grande baque porque é a festa que movimenta a nossa economia por muitos meses”, diz a chefe do departamento de turismo.

Se o culto ao bode sofre, a cadeia produtiva em torno do animal também padece. Um curtume com 80 cooperados em Ribeira, distrito a 14 km de Cabaceiras, paralisou a produção do couro do caprino por quase três meses.

O diretor da cooperativa, Luís Fernando de Souza Meira, 32, e sua mulher tiveram Covid-19 e todos os cooperados tiveram de deixar seus postos de trabalho às pressas. “A produção caiu 90%.

Se não fosse uma reserva financeira e o auxílio do governo, eu não sei o que seria”, diz.

Mas Cabaceiras já começa a ensaiar uma recuperação. A cidade reabriu seu principal cartão-postal natural, o Lajedo de Pai Mateus, um imenso conjunto de blocos de granito arredondados de até 45 toneladas que um dia abrigou o ermitão que dá nome ao lugar.

Foi lá que a reportagem encontrou o casal Carlos e Patrícia Xavier e seus filhos João e Murilo fascinados pelo pôr do sol visto a partir do Lajedo. A família é de Natal (RN), mas já percorreu 60 mil km por estradas da América do Sul dentro de uma Kombi.

“Espero que essas paisagens cinematográficas de Cabaceiras continuem sendo vistas por mais gente. Mas é preciso consciência. As pessoas perderam a noção e se esquecem do básico: a máscara no rosto”, diz Patrícia.

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