QUEM VAI QUERER…!

 

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Para Suelem Louize Freitas, Pjc,(#)

Agora, pouco me importa saber se nos 175 confrontos entre os times do Rio Negro e Nacional, o conhecido clássico Rio X Nal, também chamado de “o clássico das multidões”, ocorreram 44 vitórias para um; 69 do outro ou que teriam sido marcados 154 gols de um e 208 do outro. Também não desejo mais saber que foram registrados nesses disputas 62 empates, com um total de 363 gols. Pouco importa saber, ainda, que o primeiro jogo entre as duas equipes ocorreu no dia 02 de março de 1914, pela Liga Amazonense de Football, no campo do Bosque Municipal, sendo considerado o confronto mais antigo entre os dois clubes.

Como rionegrino que passei a ser em razão de influência de amigos de infância, mesmo sem entender nada de futebol até meus 11 anos, porque com essa idade comecei a vender picolé e levar cascudos na cabeça dentro do Parque Amazonense, mas não podia de ver os jogos de meu time do coração, porque só ia ao estádio para trabalhar e não para ver jogos. Também não desejo saber que o Rio Negro perdeu um jogo por  9 X 0 para o Nacional na primeira partida entre as duas equipes, com cinco gols de Cícero, 3 de Paulo e l de Cazuza e outros a história futebolística do Amazonas não registra.

Criança, com oito anos de idade, desenhava escudos do Rio Negro em  cadernos no Grupo Escolar Adalberto Valle, no Morro da Liberdade. A única coisa que importa para mim é dizer que no final da década de 70,   era um jornaleiro magro, raquítico, que pegava o ônibus toda madrugada no bairro da Betânia, para vender jornais nas ruas da antiga Manaus, entrecortadas por lindos e limpos igarapés, ligados por catraias coloridas que refletiam suas cores e mostravam até os remos usados para empurrá-las; Também caminhava pelas ruas cheias de paralelepípedos portugueses e ingleses, aparecendo ainda visíveis os trilhos de bondes que, um dia, transportaram lentamente namorados com seus paletós brancos e chapéus na cabeça, pendurados às portas para pegarem ventos. Na década de 70  comecei a vender jornais no porto de Manaus, na calçada dos Correios, no mercado da Cachoeirinha aos domingos, mas a cidade já não era mais a Manaus que me viu crescer gritando “quem vai querer, quem vai querer”.

Já vivia com o início do processo de implantação do comércio da Zona Franca de Manaus e tudo era frenético. As ruas fervilhavam de turistas ávidos por novidades tecnológicas e a maior delas era o videocassete, que era contrabandeado para outros Estados.

Eu, sem me importar com nada disso, nem com as maçãs geladas vendidas nas esquinas das ruas, aproveitava para fazer propaganda dos jornais que comercializava, anunciando manchetes que não existiam e acho que nem a genialidade do Editor Geral de A NOTÍCIA, Bianor Garcia, talvez as pudessem criá-las. Nessa época, diziam que se expressem um exemplar do Jornal, dele escorreria sangue, tantas eram as manchetes sanguinolentas que conseguia produzir o seu Editor Geral, um homem baixinho e rechonchudo, mas genial.

Nem o maior historiador do esporte no Amazonas, Carlos Zamith, onde estiver entre as estrelas, contando suas histórias esportivas do seu Bau Velho para Deus, poderá me desmentir: outros clubes existem ainda hoje no Amazonas, mas o clássico mais famoso era, foi e será sempre entre as equipes do Rio Negro e do Nacional. Depois, se segue o confronto “Pai e Filho”, entre o Nacional e o Fast Club, que nasceu a partir de uma dissidência no Nacional.

Mas nada disso também tinha importância, porque no início da década de 70, eu era apenas um esguio jornaleiro de 28 quilos no máximo, que acordava às 4 da madrugada todos os dias, tomava Nescau, caprichosamente feito pela minha mãe, comia um sanduíche de pão com ovo e seguia rumo à parada para entrar no ônibus de madeira da empresa Ana Cássia. No meu destino, recebia do “Buraco” o jornal A CRÍTICA, na Rua Lobo D´Almada, por uma portinhola na parede, mas que parecia um buraco mesmo,(desconfio ser essa a origem de seu apelido da pessoa maravilhosa com convivi com admiração mútua, mas que nunca tive coragem de perguntar qual era nome de batismo, até os dias de hoje).

Depois, sempre caminhando com minha sandália havaiana aos pés, seguia  para um prédio um antigo e grande, localizado na Avenida Eduardo Ribeiro, onde também funcionava no segundo andar os estúdios da Rádio Baré e recebia o JORNAL DO COMÉRCIO e. por último, seguia para a Praça Tenreiro Aranha, no centro de Manaus, para apanhar o JORNAL A NOTÍCIA.

Se tivesse havido no dia anterior algum jogo entre Nacional e Rio Negro, não importando o resultado, eu pedia mais jornais e os vendia quase todos. Se tivesse carreata de bandeiras pelas ruas da cidade, uma tradição iniciada por integrantes da “Charanga”, a mais antiga torcida organizada que se tem notícia, seria melhor ainda porque eu tinha certeza que naquele dia, iria “bamburrar” em vendas! Se não os vendesse, podia devolvê-los ao X-9, um gordo e pançudo “empresário” dos jornaleiros, que nos aguardava sentado tranquilamente em um banco de madeira, no Pavilhão São José ou no Tabuleiro da Baiana  com seu fusca estacionado ao seu lado, entre ônibus e táxis que usavam democraticamente o mesmo espaço. “Boiar” era o termo usado entre os jornaleiros para definir  os jornais que seriam devolvidos. Todos eram recebidos e ninguém tinha nada a receber ou a pagar por eles. Era uma democracia estranha, baseada na confiança mútua.

Quando seguia para devolver os jornais, continuava mais uma vez a pé pelas ruas de paralelepípedos da Praça da Matriz, passando por entre palmeiras imperiais e vendo e passeando por trilhos de bonde que um dia circularam, mas seguia gritando “quem vai querer, quem vai querer” e anunciando manchetes que acho que nem o genial Editor Geral de A NOTÍCIA, Bianor Garcia, seria capaz de criá-las, como “pegou fogo na caixa d´água” ou “moça bonita não paga, mas também não leva” para as pessoas que estavam deixando seus empregos nas muitas lojas comerciais para almoçar em casa e retornar às 14 hs. Mas era tudo mentira que eu inventava, com minha mente criativa e criadora de um infantil de adolescente. Algumas pessoas compravam; outras, apenas riam e sabiam que era brincadeira de moleque e que nada daquilo eu anunciava a plenos pulmões. Seguia com meus jornais boiados  e prestar contas, só depois que o relógio municipal anunciava que o comércio começaria a arriar suas portas às 11:30 horas, seguido de um badalar de sino na Loja Central de Ferragens S/A, que funcionava na esquina das Ruas Thedoreto Souto com Marechal Deodoro que eu, em crônica chamei de O SINO DO SILÊNCIO, maestrado pelo seu proprietário à frente de sua loja, com a calça lá no alto da cintura,  presa a um cinto para que ela não caísse.

Nessa época não existia mais O JORNAL. 

Dizem até hoje, porém, que lá trabalhavam só escolhidos a dedo pelo seu proprietário Henrique Archer Pinto, formando uma equipe de excelentes profissionais do jornalismo como os ainda hoje lembrados Ulisses Guimarães(falecido), Philipe Daou (empresário), Francisco Guedes de Queiroz (deputado, já falecido), Arlindo Porto (ex-deputado e governador do Amazonas em substituição),Castro e Costa (falecido), pai da apresentadora da TV A Crítica Babyrizzato. Fábio Lucena, senador do Amazonas (falecido), Almir Diniz de Carvalho (jornalista, escritor, cronista com excelentes obras publicadas), que ganhou o primeiro prêmio de jornalismo para o Amazonas e muitos outros que a memória não me permite lembrar, como eu gostaria. Mas presto tributo a todos, inclusive aos que esqueci seus nomes e que por ventura tenham trabalhado nessa “faculdade de jornalismo” porque até hoje o matutino “O JORNAL” é tido como a maior e melhor escola de formação e aperfeiçoamento de jornalistas que o Amazonas já teve e onde militaram muitos jovens idealistas, que depois se tornaram empresários, advogados, políticos importantes para a história do Amazonas, por várias razões e motivos. Dizem também, que todos os profissionais eram escolhidos pelo seu proprietário, mas não posso garantir que isso seja verdadeiro.

 (#) (aluna do 7o período de comunicação da UFAM, autora da ideia dessa crônica, durante entrevista de mais de 3 horas em meu apartamento, sobre o bairro da Betânia, onde vivi minha infância e adolescência e me deixou profundas lembranças positivas em minha vida)

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