País da paixão ingovernável

Fora com a cabeça! Gritou o mandatário, extremamente irritado e possuído de uma fúria cega e sem rumo que demonstrava a personificação de uma paixão ingovernável, quase um personagem manicomial descontrolado. Não gostava de ser contrariado, nem nos seus desejos e nem nas suas vontades. Adorava decapitar as pessoas e ria de forma desvairada toda vez que chamava o carrasco. Todos os seus súditos o temiam e o amavam. Diziam: ele é violento, autoritário, dominante, mas no fundo é uma boa pessoa. Adoramos nosso tirano!

Ele adorava a sua família e por diversas vezes cortou a cabeça de alguns de seus ministros por não deixarem os seus bebês, como carinhosamente os chamavam, subirem em suas costas e brincarem de cavalgadas. Gostava muito de jogar, mas somente quando vencia e com as regras que ele mesmo criava. Quando perdia, ficava impaciente e de forma explosiva gritava palavrões e impropérios a todos. Tinha a desobediência como o pior dos pecados. Sempre dizia que enquanto fosse rei, todos teriam que cumprir as suas ordens.

Quase todos os dias lembrava de um querido antecessor que achava “o cheirinho do seu cavalo melhor do que o cheiro do povo”. Depois subia em seu cavalo e saía a cavalgar entre os súditos que faziam fileiras para saudá-lo. Às vezes, quando questionado se gostava de ser rei, respondia que não tinha apego à coroa, mas não conseguia convencer nem mesmo o mais tolo morador do local, pois todas as suas falas e ações revelavam que desejava perpetuar a sua permanência no trono. Nas rodas de conversas do reino era sempre repetido um mesmo clichê para seu comportamento: “o maior mentiroso é aquele que mente pra si mesmo.” E todos riam das tolices reais.

No seu palácio havia um belo Jardim, e todos os dias ele descia para passear entre as flores. Gostava de conversar com as rosas e petúnias, ficava entusiasmado contando-lhes seus projetos e devaneios. Às vezes, parecia mesmo ouvir aplausos vindos do roseiral. Odiava quando encontrava alguns espinhos, gritava logo que alguém seria decapitado.

Queria moralizar a sociedade, e seu método era a imposição de seus valores, gostos e modos de vida. Considerava-se a autoridade máxima do País, embora os seus mandos e desmandos o levassem a um total descrédito, tornando-se símbolo de inúmeras chacotas por parte dos súditos e mesmo dos seus ministros, fazendo-o ficar enfurecido, descabelado e muito vermelho. E embora soubesse das oposições à sua forma de fazer justiça através de injustiças, para ele à aparência era o mais importante.

Havia a tempos mandado expulsar os magistrados e os legisladores do reino. Aqueles, por impedirem os seus bebês de fazerem tiro ao alvo de animais e de construírem sua própria guarda imperial infantil, fragilizando o exército oficial. E os outros, por aprovarem uma lei obstaculizando o seu desejo de fazer o que quisesse. Seu lema versava: “se eu não puder fazer o que eu quero, deixo de ser rei.” A Justiça seria ele. Então, convocou todo o povo para informar que dali em diante iria vigorar um complexo sistema de Justiça. Seria denominada “talante real”. Mas pensou bem e concluiu, não! Chamar-se-á: “arroubos soberanos”. E sorriu, e gostou. Parecia gozar o gozo dos deuses. Assim, decretou: “jogarei contra mim mesmo uma batalha de pedra, papel, tesoura, prevalecendo a pena conforme a decisão do jogo real.” E ria, ria, ria…

*Carlos Santiago – Sociólogo, Analista Político e Advogado

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