Os desafios enfrentados por estudantes indígenas do IFAM em São Gabriel da Cachoeira

Vinte e quatro estudantes estão em regime de internato no campus - Foto: Divulgação/Comunidade
Vinte e quatro estudantes estão em regime de internato no campus – Foto: Divulgação/Comunidade

O transporte e a logística continuam sendo um dos maiores entraves na expansão da educação no Amazonas. E a realidade daqueles que vivem na região do Alto Rio Negro torna-se ainda mais difícil, principalmente para os que residem em comunidades rurais e aldeias indígenas. Até o fato de ir à escola que para a maioria pode parecer uma simples tarefa, torna-se um grande desafio para os estudantes indígenas que frequentam as aulas no Instituto Federal do Amazonas Campus São Gabriel da Cachoeira (distante 852 km de Manaus).

O estudante do 3º ano do curso Técnico de Nível Médio em Administração, Geremias Góes dos Santos, da etnia Yanomami é um dos exemplos de persistência e força de vontade para concluir seus estudos. Aluno residente, Geremias conta sua saga para vencer 150 quilômetros que separam a comunidade Maturacá do Campus São Gabriel da Cachoeira.

Levo dois dias para chegar na escola. Saio ainda de madrugada da comunidade Maturacá e chego a noite na comunidade Nazaré para pernoitar. Saio assim que amanhece o dia e chego em São Gabriel da Cachoeira no final da tarde. Faço esse caminho duas vezes por ano de rabeta”, disse ele ao se referir a uma canoa motorizada, um dos meios de transporte mais populares na Amazônia.

Geremias Santos leva dois dias para chegar na escola, mas não desiste do sonho de concluir os estudos

Segundo o reitor do IFAM, Antonio Venâncio Castelo Branco, a missão do instituto é atender a demanda escolar indígena e transpor as dificuldades do acesso ao ensino no Amazonas. “Histórias como a do Geremias retratam a dura realidade que os estudantes amazônidas enfrentam na busca da qualificação acadêmica e profissional. Hoje, o IFAM tem levado diversos cursos para dentro das comunidades ribeirinhas e indígenas. Nossa missão é oportunizar o ensino de qualidade para o maior número de pessoas”, disse o reitor.

Vivendo no campus

Apesar de visitar a família na comunidade apenas duas vezes por ano, Geremias ressalta a importância que o instituto tem na sua vida. “A saudade da família é grande, mas ela é suportável e necessária para que o conhecimento que eu recebo no campus seja possível levar de volta para a minha comunidade. E todos lá torcem muito pela gente”, disse ele que junto com mais 23 estudantes estão em regime de internato no campus.

O alojamento do IFAM campus São Gabriel da Cachoeira possui quatro dormitórios – totalizando 80 leitos – e equipados com área de serviço, banheiros e área de circulação social.

Bilinguismo

Segundo o professor Edilson Melgueiro, o campos tem a matriz curricular que mais se aproxima da realidade indígena

Aprovado em 2002 e regulamentado em 2006 por meio da A Lei Nº 145/2002, o município de São Gabriel da Cachoeira foi o primeiro no Brasil a cooficializar as línguas indígenas Nheengatu, Tukano e Baniwa ao lado do português. Desde 2017, o campus São Gabriel da Cachoeira tem investido no ensino de nheengatu para servidores. De acordo com o professor indígena Edilson Martins Melgueiro – ou Kadakawali – nome na língua baniwa, atualmente o campus possui estudantes de 23 etnias e é pioneiro na elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP) e na adaptação da matriz curricular que mais se aproxime da realidade indígena.

“Aqui no campus até o momento nossas aulas são ministradas em português. Porém, nas escolas indígenas municipais do interior, as aulas das séries iniciais são ensinadas nas línguas: Baniwa, Tukano, Yanomami, Nheengatu, dentre outros. Nossa proposta é que por meio do Centro de Idiomas, materiais didáticos direcionados à área de agricultura, pesca entre outros sejam produzidos com tradução para as línguas indígenas e que sirvam de subsídio no ensino técnico e tecnológico ofertado no IFAM Campus São Gabriel da Cachoeira“, revelando que o Censo 2010 contabilizou mais de 200 línguas, entretanto nem todas são estudadas.

O reitor do IFAM ainda destacou a parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). “Ter esse laço com a FOIRN  é de suma importância para o resgate e a valorização da cultura e da língua indígena em nosso país. A grande diversidade e representatividade de todas as etnias de São Gabriel dentro do campus, demonstra a relevância da interculturalidade na missão do IFAM. Nosso objetivo é garantir a adaptação de processos de aprendizado que respeitem às tradições e valores culturais indígenas”, disse Castelo Branco.

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