MANAUS

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Os foguetes estão estourando enquanto escrevo. Sei que comemoram o aniversário de Manaus e não posso evitar a onda de ciúmes que de mim toma conta. Afinal, tenho um velho e inexorável caso de amor com esta cidade e, como sou extremamente possessivo, espicaça-me a sensibilidade ver que outros (talvez profanos) a ela também tributam reverências. Fazer o quê? Bonita e dócil como é, Manaus conquista e encanta, de forma que é inevitável ter admiradores de todos os matizes. E aos montes. Resta-me engolir o ciúme e homenagear minha Princesa.

Mas, como? “Faça-lhe a homenagem no texto”, dir-me-ão com sinceridade alguns amigos. Aí é que a coisa se complica. Cadê o talento necessário para tanto? Pensei em pedir emprestado o Soneto de Fidelidade. Não dá. O grande Vinicius admite que seu amor pode ter fim (“que seja infinito enquanto dure”), enquanto não me é dado vislumbrar, nem admitir, que um dia eu possa deixar de amar Manaus. A ela estou atento antes de tudo “e com tal zelo e sempre e tanto”, sendo certo também que “mesmo em face do maior encanto, dela se encanta mais meu pensamento”. Mas o poetinha que me desculpe: no meu caso com Manaus, o amor não é chama e por isso é imortal. E vai durar para sempre.

E Jacó, que serviu “a Labão, pai de Raquel, serrana bela”? Camões, recriando a lenda bíblica, afirma que o “triste pastor”, depois de servir sete anos, teve “negada sua pastora, como se a não tivera merecida” e, persistente, “começou de servir outros sete anos”, com a solene proclamação de que “mais servira se não fora para tão grande amor tão curta a vida”. Ora, mas eu sirvo à própria Manaus há mais de setenta anos, dez vezes mais que o pastor com sua Raquel. Também o épico português, pelo menos nesse caso, está fora de cogitação.

Nos Versos a Carolina, Machado de Assis foi levar à sua amada “o coração de companheiro”, que, “apesar de toda a humana lida”, pulsava com “afeto verdadeiro”. Mas, dona Carolina estava morta e Manaus está mais viva do que nunca, de maneira que o Bruxo do Cosme Velho é igualmente descartado, com todas as minhas vênias, homenagens e profundo respeito.

Não tendo em quem me apoiar, deixo correr a pena (o teclado é mais moderno). Que corra, e corra muito, para dizer a Manaus que ainda sou feliz por nela viver. Que ela fique sabendo, de uma vez por todas, que, sem embargo dos cretinos e dos ingratos que dela falam mal, sua altivez e sua beleza permanecem intocadas e delas retiro o alento para confrontar essas aves de rapina. É da natureza delas não ter nenhum respeito, nem pelo próprio alimento.

Já não tenho, é certo, as águas límpidas do igarapé de São Raimundo, por onde, em remadas rigorosamente ocultas de dona Lucíola, alcançávamos a cachoeira do São Jorge. Tudo se poluiu na voracidade da inchação urbana desordenada e irresponsável. Também se foi a piscina natural do Parque 10, com o Mindu singelamente cercado, mas fluindo natural e sobranceiramente. A Ponte da Bolívia virou esgoto e os igarapés todos acabaram servindo apenas para projetos demagógicos.

Manaus, porém, é a Fênix. Mesmo agredida e, ainda que a queimem, recobra a vida e segue na sua existência mais que tricentenária. Por isso, já escrevi alhures: Não pode saber tudo de beleza quem nunca viu um pôr-do-sol na baía do Rio Negro. De agosto a outubro, quando o farto verão amazonense (obrigado, Chico da Silva, pelo adjetivo) se acha no auge, as águas, pretas como azeviche, bamboleiam ao compasso da brisa morna, com cristas suaves de espuma.

O astro, poderoso e brilhante, deixa o zênite e começa a irremediável descida. Cinco horas. Das contrastantes areias da Ponta Negra, o manauense contempla o espetáculo olímpico. A quilométrica distância, a selva marginal se pontilha de auriverde, como se o pavilhão abraçasse a natureza.

A cidade rebrilha ao fundo e parece que o próprio Amon-Ra é quem dirige a carruagem de fogo, que outro comandante não estaria habilitado para dirigir tão grandioso espetáculo. O gigante de ébano está, então, suave como um lago e liso como um espelho, em cuja face se refletem os comandos do outro Golias, o celestial. A maciez de suas águas convida ao irrecusável mergulho, em busca, talvez, da Iara, que, ali mesmo no igarapé do Tarumã, sumiu para sempre com o índio apaixonado.

Nada parece perturbar a completa harmonia dos elementos. Os namorados se dão as mãos e, embevecidos, adiam por algum tempo o prosseguimento das carícias, envolvidos eles próprios pelo cenário, tão sublime como a mais sublime das paixões. Lentamente, todos os matizes se vão alternando, qual num homérico disco de Newton.

A trajetória na abóbada chega ao fim e a tonalidade do rubi tomou conta do mundo. Da Vinci e Raphael a fixariam em telas para deleite da Humanidade. Tudo é belo porque o grande rio está esplendoroso. Aos poucos, a mata volta ao verde escuro. E o sol se deita para mais uma noite de amor com as Anavilhanas.

Por tudo isso, te amo, Manaus. Recebe meu beijo e o meu carinho.

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