Livros que desvendam a realidade da vida

A leitura de um bom livro é a porta aberta para o conhecimento e para o entendimento da realidade do mundo e da vida. Essa foi a constatação a que chegou aquele jovem pobre após achar uma pérola numa lixeira: um livro. A curiosidade em conhecer seu conteúdo sempre foi enorme. Lembrou que sua aventura pelas letras iniciou aos 12 anos de idade, numa cartilha chamada Caminho Suave. Rememorou as imagens: abelha, barriga, casa, dado, uva, xadrez e a zabumba. Um redemoinho sinestésico trouxe a sensação infante, onde tudo era novidade e alegria, embora ele nunca tivesse visto um jogo de xadrez, tocado uma zabumba ou degustado uma uva.

A vida é mesmo uma construção, pensou ele. Veio à mente sua formação como leitor. A imagem de Machado de Assis foi a primeira a surgir. Não sem motivos. Esse escritor, mulato, epilético e gago, que nunca frequentou universidade, deixou livros extraordinários. Em sua obra “Helena”, demonstra que a mulher era tratada como um ser frágil e objeto de cobiça do homem. No livro Dom Casmurro, retrata um triângulo amoroso entre Bentinho, Capitu e Escobar, uma trama amorosa criada para se debater sentimentos e valores universais, como o amor, o ciúme, a confiança, a amizade, entre outros.

Lembrou com tristeza o seu contato com o tema da escravidão no Brasil ao ler Aluísio de Azevedo. Sorriu levemente ao pensar em Lima Barreto e como o admirava. Não esquecia suas ironias à falsa intelectualidade que prospera na elite brasileira. Sua atualidade parece não passar. Respirou fundo e se entristeceu ao lembrar os escritos de Jorge Amado (País do Carnaval) e de Graciliano Ramos (Vidas Secas), que retratam um país que joga para debaixo do “tapete” as necessidades dos pobres e o sofrimento dos nordestinos com a seca e a exploração dos donos de terras.

Realmente, a literatura desvenda a vida. Literatura é a política da vida. Esse pensamento o fez pensar num episódio no qual, numa madrugada, já adulto – a caminho do trabalho -, um idoso lhe ofereceu um livro em troca de dinheiro para comprar o café da manhã. O título dizia “Política – Quem manda, por que manda como manda”, do escritor João Ubaldo Ribeiro. Aquele livro parecia explicar coisas da política, e como o Brasil passava por eleições e conflitos populares, era um bom momento para ler.

Logo nas primeiras páginas, o homem percebe que havia comprado a chave para desvendar aquilo que guardava desde quando o achara na lixeira. No livro comprado do idoso, o escritor explica que a política é o exercício do poder e de suas consequências, e que o Estado é o poder maior porque é soberano e o povo pode ser formado por várias nações e grupos sociais. A política seria então reflexo dos serviços de transportes, saúde, educação e lazer, e outros. Afirma que toda pessoa tem ideologia, um modo de ver e agir no mundo, e que as ideologias estão nas narrativas dos livros e dão rumo à vida e que somente através da consciência política podemos aspirar à dignidade humana e a integral condição de cidadão.

O homem então começou a ler o livro encontrado, ainda criança. Chamava-se “A História Econômica do Brasil, do historiador Caio Prado Júnior, no qual ele advoga que o problema do desenvolvimento econômico do País sempre foi a dependência dos mercados e do capital externo, o que fez com que nossa economia fosse sempre periférica e que a dominação dos fortes sobre os fracos se dava em especial pela política e pela economia.

Como a leitura traz um autoconhecimento e um desvendamento do mundo, aquele homem nunca mais olhou para vida da mesma forma. Compreendeu que não existem verdades absolutas, e que o mal estar do Brasil não é fruto da vontade de Deus, mas de decisões humanas. Percebeu que a leitura de um bom livro se dá pari passu à construção da vida e do mundo, e que os livros nos ajudam a escolher e a trilhar o melhor caminho, num mundo cheio de escolhas.

*Carlos Santiago: Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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