Gonzaga Blantez e a Casa do Parente

Gonzaga Blantez
Gonzaga Blantez

Da Redação – A Entrevista da Semana deste domingo (6) é com Edinaldo Reis de Souza, 41, o Gonzaga Blantez, compositor paraense de alma amazonense, casado, pai de três filhos, fundador da famosa Casa do Parente, reduto de artistas que são pratas da “casa”, como Nicolas Júnior e Gil Valente. Num bate-papo descontraído, ele conta um pouco da sua trajetória artística, os prêmios ganhos, as parcerias, o gosto pela culinária e a importância de manter viva a cultura regional.

A Casa do Parente é um local aberto à cultura regional e à culinária cabocla
A Casa do Parente é um local aberto à cultura regional e à culinária cabocla

BLOGdaFLORESTA: Como surgiu a ideia de criar a Casa do Parente, um local que reúne cultura e culinária cabocla ???

GONZAGA BLANTEZ: Tudo começou quando ganhei um festival em Novo Aripuanã, onde recebi prêmio em dinheiro pelo primeiro e segundo lugares. Foi daí que comprei a Casa do Parente. Desse tempo o local começou a reunir compositores que vinha comer o famoso feijão do Blantez. Isso trouxe os amigos, parentes e parceiros. Todo final de semana trocávamos idéia, fazíamos parcerias em domingos culturais. O local sempre teve um ar bucólico. Aquele clima interiorano. Há cerca de quatro meses resolvemos abrir o espaço à comunidade para mostrarmos o que estava sendo produzido em termos de arte aqui dentro da Casa. Afinal, muitos compositores saíram daqui, compuseram aqui e foram participar de festivais. Entre eles estão Nicolas Júnior, Gil Valente, Antonio Pereira, Célio Cruz e Armando de Paula. Todos parceiros. Quando começa o período de inscrições do Fecane, por exemplo, eles migram para cá e assim avaliarmos as músicas que tem chance de concorrer.

O boi Vira Volta representa aqueles "parentes" que vieram para Manaus e voltam todo fim de ano para Alenquer
O boi Vira Volta representa aqueles “parentes” que vieram para Manaus e voltam todo final de ano para matar a saudade em Alenquer

BDF: Sabemos que você é um dos grandes vencedores de festivais na região. Como é isso?

GB: É verdade. Sou o cara que mais teve vitórias no Fecani. Melhor letra. Melhor arranjo. Melhor interprete. Todo anos estamos lá. Também participei do festival de toadas de Parintins, onde ganhei por três anos seguidos, sendo uma das composições Garantido Rei. Na verdade, sou um compositor eclético. Componho um pouco de tudo. Vou do brega à bossa nova. Isso também acontece porque tenho muitos parceiros de linguagens diferentes (samba, pop, brega, música regional). Isso me abriu um leque de possibilidades para compor com eles dessa forma. Agora em julho vou para Belém participar de um festival. Recentemente estive no Rio de Janeiro participando do Puxirum , show só com música amazônica.

Blantez é o artista que mais ganhou prêmios no Fecani
Blantez é o artista que mais ganhou prêmios no Fecani

BDF: A Casa do Parente também já está se tornando um point tanto de artistas locais como de fora, não é verdade?

GB: Isso mesmo. Do Pará veio um pessoal de Alter do Chão fazer uma oficina de carimbó. Alguns amigos parceiros de São Paulo vêm esse ano participar do Fecani e também já agendaram shows. Assim unimos o útil ao agradável.

Gostos e ritmos se misturam num só local
Gostos e ritmos se misturam num só local

BDF: Como foi que você deu uma guinada para a gastronomia?

GB: Na verdade, eu gosto da cozinha. Embora não seja um chef profissional em casa, sou eu que assumo a cozinha. Como gosto de música juntamos as duas coisas. Acabou que as pessoas vinham atraídas pelos dois temperos: da comida e o da música. O feijão foi o grande atrativo da Casa. Nos intervalos surgiam as parcerias musicais, poesias e textos. Sempre alguém acrescentava algo e a coisa foi dando certo, levando e trazendo conhecimento aqui para dentro do espaço. Aqui ninguém é melhor do que ninguém. Todos dão sua contribuição. Quem ganha com isso é a cultura local, a comunidade em geral.

Na Baiúca Cultural podem ser encontrados os trabalhos dos artistas que ali se apresentam
Na Baiúca Cultural podem ser encontrados os trabalhos dos artistas que ali se apresentam

BDF: O que é o Cordão da Marambaia?

GB: É um movimento para resgatar, principalmente, as músicas dos anos 80 e 90, como as guitarradas, os merengues, carimbós. São aquelas músicas que passaram muito rápido por nossas vidas e ficaram esquecidas. Eu sempre achei isso a cara da Amazônia e pensei que poderíamos resgata-las dando uma pitada diferente. Estudei muito a sonoridade afro-brasileira e por viver no interior do Pará eu sofri essa influência, sendo músicas influenciadas pelo Caribe e também andinas. Por isso o marambaia tem uma sonoridade particularmente diferente. Tem público e vende discos.

entrevista-casa-do-parente-blogdafloresta07BDF: E o seu novo xodó, o Vira Volta.

GB: Na verdade, eu escrevi o Vira Volta em 2007 e revendo alguns textos meus antigos resolvi por em prática de novo o projeto. Ele é um boi que resgata a cultura negra lá da minha cidade de Alenquer, pois percebi que ela estava se acabando. Como não posso influenciar diretamente nesse movimento lá, criei uma outra situação para resgatá-la. No dia 25 de dezembro participaremos de uma alvorada lá e ficaremos até o dia 6 de janeiro, quando se comemora São Benedito, o Dia de Reis, e os negros lá comemoram também a libertação dos escravos. Por conta disso criei a lenda do Vira Volta para que essa cultura fosse mantida viva e não ficasse perdida nos livros. Ele também representa todas aquelas pessoas que vem do interior paraense para trabalhar aqui e sempre retornam no final do ano para passaram com seus familiares. Então esse é o Vira Volta.

entrevista-casa-do-parente-blogdafloresta08BDF: A Casa do Parente recebeu um convidado que se encantou com a culinária local. Como foi isso?

GB: Foi um antropólogo italiano, não estou lembrando o nome, que veio como convidado do jornalista Gilson Monteiro, após ter falado muito de mim. O italiano queria comer o jaraqui e o pacú frito, mas não tínhamos naquele momento. Foi quando chegaram trazendo bodó e acabei fazendo uma caldeirada para ele. Ficou tão impressionado que comeu cinco pratos. Comeu tanto que se jogou na rede e deu aquele cochilo até quatro horas da tarde. Ele disse que quando voltar de novo à Manaus faz questão de vir aqui de novo.

BDF: Quem deseja conhecer à Casa do Parente como faz?

GB: A Casa do Parente fica localizada na rua Barão de Suruí, nº 234, Parque das Laranjeiras, bem próximo ao Conjunto São Judas Tadeu. No Facebook é Gonzaga Blantez. Pelo email é [email protected]. Contatos também podem ser feitos através dos números (92) 9463-9838 ou 8238-3545. E para que tem interesse não apenas nos trabalhos do Gonzaga Blantez e do Marambaia basta passar na Baiúca Cultural, aqui mesmo, que vai encontrar os trabalhos de todos os artistas que passaram pela Casa. Funcionamos de terça a domingo, a partir de 9 horas. Na quinta-feira temos a Quinta Autoral e nos finais de semana temos show ao vivo./// Roberto Brasil – Fotos: Áida Fernandes

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