Falta de percepção do risco contribui para queda no isolamento, avalia sociólogo

Foto: Júnior Matos

A quebra do isolamento social por parte dos amazonenses tem sido apontada como uma das causas do aumento exponencial de casos de Covid-19 no Amazonas – ontem foram confirmados 69 novos casos, totalizando 1.275 no Estado. Em Manaus, tem sido recorrente ver famílias inteiras irem a feiras e supermercados, assim como aglomerações em agências bancárias.

Especialista consultado por A Crítica aponta que a falta de percepção do risco da contaminação tem sido um dos motivos para que muitas pessoas insistam em sair de casa sem necessidade em meio à pandemia do novo coronavírus.

Na avaliação do sociólogo Tiago da Silva Jacaúna, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o comportamento social responde a pelo menos dois importantes fatores: o nível de confiança nos governantes e a percepção do risco e gravidade da contaminação.

O que, segundo Jacaúna, estamos testemunhando em meio à pandemia da Covid-19 são discursos e comportamentos antagônicos vindos de governantes que têm provocado desorientação e divisão na forma como as pessoas estão respondendo às orientações dos especialistas e percebendo a gravidade da doença que, segundo último boletim da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), já causou 71 óbitos.

“Dados sobre o índice de isolamento social disponibilizados pelo In Loco, por exemplo, demonstram como as taxas de isolamento caíram quando o presidente da República [Jair Bolsonaro] desobedeceu e proferiu discursos contrários às determinações do Ministério da Saúde e da OMS [Organização Mundial da Saúde]. Em Manaus, por exemplo, em 29 de março, dia em que o presidente fez tour nas ruas do Distrito Federal, a taxa de isolamento social era de 64,2%; em 7 de abril este índice caiu para 49,9%”, apontou.

Ainda conforme Jacaúna, que tem doutorado em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os dados demonstram que a falta de sintonia governamental provoca desconfiança nos governantes e nas políticas de enfrentamento à doença ao mesmo tempo em que afeta a percepção que a população tem sobre a gravidade de se contrair o vírus da Covid-19.

“Nesse cenário de desconfiança, observado em Manaus, cresce o uso das notícias online e das mídias sociais, pois os veículos de imprensa tradicionais e profissionais também são percebidos como suspeitos. Esse cenário é perigoso para a propagação de notícias falsas (fake news) e com pouca credibilidade afetando a confiança, a percepção do risco e o comportamento social”, concluiu.

Cenário preocupante

Por parte de especialistas da área de saúde, tanto do âmbito governamental quanto da pesquisa, este cenário em que as pessoas insistem em continuar levando uma “vida normal” em meio à pandemia do novo coronavírus pode contribuir para que o Amazonas continue apresentando um índice preocupante de crescimento de infecções e de mortes.

“Manaus é a capital brasileira com menor adesão ao isolamento social. Enquanto as pessoas continuarem se expondo ao vírus desnecessariamente, teremos um aumento expressivo no número de casos e, consequentemente, mais mortes nos próximos dias”, alertou a diretora-presidente da FVS-AM, Rosemary Pinto.

Em entrevista ao A Crítica, o médico infectologista Antônio Magela, da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT-AM), avaliou que por conta da capital amazonense ser o centro econômico da região, o fluxo de pessoas tende a ser sempre intenso.

“Temos um parque industrial com empresas de vários países do mundo, inclusive de lugares onde a pandemia foi mais evidente. Por isso, o fluxo de pessoas desses países vindo para Manaus, ou saindo daqui, é inevitável. É um fator que, com certeza, contribuiu para que nós tenhamos um número muito grande de casos confirmados de covid-19 no Estado”, apontou Magela.

Grupo de pesquisadores

Segundo um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a maioria dos estados acertou ao adotar políticas para restringir a circulação de pessoas contra o avanço do novo coronavírus, impondo medidas drásticas quando havia poucos casos de infecção conhecidos.

“Vários estados responderam cedo à situação de acordo com as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e com mais clareza que o governo federal. Eles entenderam que essas medidas são importantes para controlar o contágio”, disse a coordenadora do grupo de estudo, Lorena Barberia, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Por ACrítica

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