Enigma americano: casos de vírus aumentam e mortes diminuem

Abre e fecha: oscilações nos níveis de contágio prejudicam regiões localizadas, mas números gerais são positivos ─ Foto: Eric Gay/AP

Quem acompanha o noticiário tem motivos para acreditar que os Estados Unidos estão na beira do precipício. Quase 60 mil infectados num único dia, caminhando para 100 mil, segundo disse o infectologista chefe Anthony Fauci.

São os motivos errados.

No pico da epidemia, em 19 de abril passado, morreram 1.733 pessoas com Covid-19. Ontem, foram 273. No Brasil, um dia antes, foram 1.111.

Desde o auge, as duas curvas – contagiados e mortos – começaram a se separar nos Estados Unidos, num movimento chamado de jacaré abrindo a boca. E a boca não para de abrir.

O retorno do fechamento de estabelecimentos comerciais em estados importantes como o Texas e a Flórida cria a impressão de que situação está fora de controle.

O “refechamento” é uma opção ruim para todos, principalmente para os proprietários, que gastam para abrir de novo e em seguida perdem  um faturamento já não muito animador.

Mas não é uma situação desbaratada. Fora exceções localizadas como Houston,  dados como a ocupação de leitos de UTI indicam uma taxa que oscila, como pequenas ondas, em torno dos 60%, em nenhum momento perto do estado crítico.

O primeiro motivo da disparidade entre casos confirmados e mortos é o aumento do número de testes – nenhum outro país fez mais testes do que os Estados Unidos. Foram quatro milhões na semana passada.

Outra hipótese, levantada por Fauci: o vírus passou por uma mutação para ficar mais contagioso, uma adaptação típica dos agentes infecciosos movidos pela mesma e unânime lei da própria reprodução.

A mutação foi detectada, ainda sem confirmação, numa espícula, as “garrinhas” de proteína que se acoplam a células saudáveis do sistema respiratório, transformando-as em produtoras de clones do vírus.

O fato de que tenha se tornado mais contagioso não significa que o Sars-CoV-2, o nome oficial do novo coronavírus, seja necessariamente mais deletério, o que aumentaria a gravidade dos casos e o índice de mortos.

Segundo um estudo de Stanford, baseado em testes de anticorpos, a letalidade real do vírus é de 0,25%. Ou seja, mata uma pessoa em 400.

Nos dois extremos, o mais letal e o menos, ficam o influenza, com 0,1%, e o Ebola, com 50% de letalidade.

O abaixo-assinado de 239 especialistas divulgado ontem pelo New York Times, apelando pelo reconhecimento de que o vírus paira no ar através de aerossóis, assustou muita gente.

Um vírus aerotransportado teria um alcance de contágio muito maior, principalmente em ambientes fechados e sem ventilação.

A ideia comum de que isso aconteça leva os leigos a ter ideias “profundamente idiotas”, segundo os termos nada amenos  do epidemiologista Bill Hanage, de Harvard.

“Temos a noção de que a transmissão aérea significa gotículas que pairam no ar capazes de nos infectar muitas horas depois, esparramando-se pela rua e entrando pela caixa de correio até conseguir entrar em nossas casas”.

Não é absolutamente isso que acontece, coincidem todos os cientistas, numa dose de alívio de alcance mundial.

Já pensaram se tivéssemos que usar máscaras dentro de casa, o tempo todo, para escapar de um vírus voador?

O tratamento dos pacientes de Covid-19 também está avançando, embora não existam medicamentos específicos para a doença.

Os dois remédios adaptados mais úteis, segundo estudos mais recentes, são o remdesivir, originalmente um remédio para Ebola que nunca chegou a ter esse uso.

Problemas: o custo e a rapidez do governo americano ao adquirir 99% dos estoques do antiviral.

O remdesivir acelera a recuperação de pacientes que ainda não chegaram ao estágio derradeiro de precisar de respiradores, diminuindo o tempo de hospitalização.

Ele é produzido apenas pela Gilead, um laboratório especializado em antivirais. O tratamento costuma ser de cinco doses diárias.

Preço nos Estados Unidos para pacientes em sistemas públicos de saúde, como o Medicare: 390 dólares por dose, num total de 2.340.

Para pacientes com planos privados de saúde, salta para 3.120 dólares.

Muitíssimo mais barata, mas politizada a ponto em que nem estudos científicos convencem, para um lado ou outro, é a hidroxicloroquina.

Um estudo feito pelo Henry Ford Health System, um programa de saúde sem fins lucrativos na região de Detroit, o berço do automóvel, teve os seguintes resultados:

Dos 2.541 pacientes em seus hospitais estudados entre 10 de março e 2 de maio, morreram 26,4% dos que não receberam o medicamento.

Entre os que tomaram a hidroxicloroquina em no máximo 48 horas depois de hospitalizados, o índice de mortes foi de 13%.

Não esperem ver grande divulgação desse estudo.

Como Donald Trump disse, em maio, que tinha tomado preventivamente o medicamento para malária, formou-se uma torcida mundial para que: a) a hidroxicloroquina seja considerada o pior remédio do universo; e b) o coração presidencial não aguente a dose.

Não é preciso nem falar sobre o similar brasileiro.

Os Estados Unidos são parecidos com o Brasil no sentido da grande extensão territorial e do sistema federativo pelo qual os estados conduzem os programas de saúde pública.

Os dois países hoje estão nos dois primeiros lugares da lista de mais casos de Covid-19.

No índice de mortes por milhão de habitantes, os Estados Unidos têm 400 e o Brasil, 305 – amplamente superados por Bélgica, Espanha, Reino Unido, Itália e até a Suécia, com seu programa especial de buscar, sem declará-la, a imunidade de rebanho.

Sobre esta, dois novos estudos indicam que o alcance da infecção seja maior do que o constatado até agora se for usado o critério do linfócitos T, especializados no combate a infecções, e não apenas o nível de anticorpos específicos para a Covid-19.

Extrapolando-se os resultados dos estudos, o número de pessoas que já tiveram contato com o novo vírus chegaria a 30% em Londres e 40% em Nova York.

Para alcançar a imunidade de grupo, é preciso que o índice seja de 60% a 70%.

O bichinho continua a dar um trabalho danado, mas seus pontos fortes e fracos vão sendo desvendados pela maior concentração de estudos científicos da história da humanidade.

Faz parte do processo que estes estudos sejam, eventualmente, contraditórios e contestados.

É batendo cabeça que o conhecimento científico, ajudado pela prática clínica, avança.

POR VEJA

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