Covid-19: Estudo sugere que Manaus pode ter alcançado imunidade de rebanho

Coronavírus Estudo sugere que Manaus pode ter alcançado imunidade de rebanho ─ Foto: Diego Peres/Secom

Cientistas brasileiros estimaram, em um estudo ainda não publicado em revista científica, que Manaus pode ter alcançado a imunidade de rebanho contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2), com até 66% da população manauara tendo desenvolvido anticorpos para o vírus. Os cientistas alertam, entretanto, que chegaram à conclusão depois de analisar amostras de um banco de doadores de sangue, que não necessariamente representa toda a população da cidade.

A pesquisa, que ainda precisa passar por revisão de outros cientistas, é de 34 autores de várias faculdades da USP, incluindo a Faculdade de Medicina, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, além de outras instituições no Amazonas, em São Paulo e nos EUA. A versão prévia do estudo foi divulgada em um repositório on-line na segunda-feira (21).

O percentual de 66% é o máximo considerado pelos cientistas; o mínimo da população que desenvolveu anticorpos é calculada por eles em 44%. A estimativa inferior não considera as pessoas que podem tê-los desenvolvido, mas que tiveram resultados de testes negativos (os falsos negativos) ou em quem os anticorpos foram detectados, mas, depois, não mais. (Já se sabe que os anticorpos para o Sars-CoV-2 podem desaparecer depois de um tempo).

Para os pesquisadores, a elevada taxa de mortalidade em Manaus e a rápida queda no número de novos casos sugere que a capital do Amazonas pode ter alcançado a imunidade de rebanho – situação na qual um número suficiente de pessoas em um determinado lugar já foi infectado ou imunizado contra uma doença e consegue evitar a circulação dela.

No caso do sarampo, por exemplo, é necessário que 95% da população esteja vacinada para se alcançar a imunidade de rebanho para a doença. Na pesquisa da Covid em Manaus, os autores alertam que não há consenso sobre qual deve ser o percentual mínimo de pessoas infectadas para que a imunidade de rebanho seja alcançada para a Covid-19.

“Imunidade de rebanho é o valor em que você tem um número de pessoas que já pegaram a doença que faz com que o número de casos caia – não quer dizer que as outras pessoas não vão pegar a infecção”, explica a pesquisadora Ester Sabino, autora sênior do estudo e professora da Faculdade de Medicina da USP.

Quando a imunidade de rebanho acontece, mesmo aquelas pessoas que não podem ser vacinadas – no caso de doenças para as quais existe uma vacina – ficam protegidas.

No caso de Manaus, lembra Sabino, a percentagem encontrada ainda deixa, teoricamente, 30% da população manauara vulnerável ao vírus.

“As pessoas podem se infectar? Podem, mas provavelmente vai ser em formato menor. Mas isso depende de quanto tempo dura essa imunidade. Hoje, a chance de ter uma grande epidemia como a que teve no começo do ano é pouco provável”, avalia a cientista.

Sabino explica, ainda, que o percentual estimado na pesquisa é compatível com modelos iniciais da pandemia – que apontavam que, para que começasse a haver queda nas contaminações, era necessário que entre 60% e 70% de uma população tivesse contato com o vírus.

Mas Sabino também lembra que, se houvesse uma tentativa de alcançar a imunidade de rebanho de forma geral e os números de Manaus fossem vistos em São Paulo, por exemplo, a capital paulista possivelmente teria três vezes mais mortes do que tem hoje.

“Se em São Paulo tivesse acontecido a mesma coisa, e se corrigisse pela faixa etária [dos moradores], teriam morrido três vezes mais pessoas”, afirma a cientista da USP. A população de São Paulo é mais velha do que a de Manaus.

O consórcio de veículos de imprensa, que levanta os dados sobre mortes e casos de coronavírus no Brasil, aponta que a cidade de São Paulo tinha, até segunda-feira (21), 12,3 mil mortes causadas pela Covid-19. Já Manaus registrava 2,46 mil mortes.

A população paulistana é, entretanto, quase 7 vezes maior que a manauara, mas o número de mortes em São Paulo não chega a ser 7 vezes maior que em Manaus – e, sim, 5.

O epidemiologista Fernando Barros, professor das universidades federal e católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul (UFPel e UCPel, respectivamente), que não participou do estudo, avalia que o índice encontrado em Manaus não indica imunidade coletiva na cidade.

“Se Manaus tivesse imunidade de população, não ia ter uma segunda onda como alguns dados de hospital estão indicando”, pondera. “Pode ser 66% [porcentagem com os anticorpos], mas continua havendo gente suscetível e indo para o hospital”, afirma Fernando Barros.

“Por enquanto, não tem nenhum lugar, nem no Brasil nem no mundo, em que se possa dizer que a população tenha ficado imune”, diz Barros. Quanto maior a prevalência [de anticorpos], menos o vírus circula, a infecção diminui, mas a gente não sabe se ela vai parar”, pondera.

“Se as pessoas que estavam em distanciamento saírem para a rua, não dá para dizer se não vão se contaminar. É um jogo difícil – a circulação diminui, as pessoas se sentem seguras, saem para a rua, a infecção aumenta. É isso o que está acontecendo na Europa”, lembra.

Os pesquisadores avaliaram 6.316 amostras de sangue da Fundação Hospitalar de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas, colhidas entre os dias 7 de fevereiro e 19 de agosto.

Na prévia do artigo, os cientistas ponderam que os doadores de sangue representam uma amostra limitada da população de Manaus: em primeiro lugar, crianças e idosos não podem doar.

Essa dúvida, sobre o nível de representatividade do estudo, é levantada também pelo professor Fernando Barros, das universidades em Pelotas.

“A dúvida sempre é: esses doares representam a população de Manaus? Doadores de sangue são pessoas jovens, tem muito doador de sangue de serviço público – bombeiro, policial, trabalhadores de saúde. Não se sabe se essa população não tem uma prevalência maior [de anticorpos] que a população geral de Manaus”, lembra.

Na pesquisa, os cientistas avaliaram a presença de anticorpos do tipo IgG para o coronavírus. Ig é a sigla para imunoglobulina, um tipo de anticorpo produzido pelo sistema imunológico contra um agente invasor. Nesse caso, de classe G – que identifica se um paciente teve infecção anterior, pelo menos 3 semanas antes do exame, e está possivelmente imunizado.

Medidas para conter disseminação

A queda dos novos casos em Manaus não está relacionada, apenas, à possível imunidade coletiva, ponderam os pesquisadores. Eles reforçam que “medidas não farmacológicas”, como o distanciamento social e o uso de máscaras, podem também ter contribuído para o controle da epidemia no Amazonas.

Mas Ester Sabino avalia que as medidas para conter a disseminação do vírus, que foram semelhantes em Manaus e em São Paulo, não foram tão eficazes na capital amazonense.

“Aparentemente, no papel, pelo menos, foram muito parecidas, mas depende de como a população compreende”, avalia. “Não consegue entender só pelas medidas por que não funcionou. No papel, é muito parecida com São Paulo, é muito difícil saber. As pessoas provavelmente ficaram em casa, mas circularam próximo de casa”, diz. (G1)

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