Coronavírus se alastra com rapidez pelo interior do país

Estudo da Fiocruz mostra que nas últimas semanas número de casos confirmados em municípios pequenos mais do que triplicou. ─ Foto: Douglas Magno/VEJA

O avanço da Covid-19 segue em ritmo acelerado pelo Brasil. A doença, que teve o seu primeiro caso registrado no país em 26 de fevereiro e se espalhou inicialmente pelos grandes centros urbanos, chega agora com força às cidades do interior. Nas últimas duas semanas, se verificou o aumento de cerca de 50% de novos casos da doença em municípios com até 20.000 moradores. Há registro de óbitos, inclusive, em duas destas localidades. A conclusão é de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Eles compararam dados de 27 de março a 23 de abril com os da semana de 17 a 23 de abril e constataram ainda que a doença é registrada em 100% das regiões mais populosas, e que o número de casos confirmados em municípios pequenos mais do que triplicou.

Os pesquisadores alertam que a disseminação do novo vírus das grandes cidades para os municípios do interior, onde há uma oferta menor de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) e respiradores, vai gerar uma pressão ainda maior sobre os sistemas de saúde dos centros maiores e capitais. “Se a gente já tem algumas dessas cidades maiores sobrecarregadas, com a interiorização podem começar a aparecer nelas muitos casos vindos do interior, como uma segunda onda. Por isso, Itália e China tentaram reter o fluxo entre regiões para limitar a epidemia”, disse Christovam Barcellos, vice-diretor do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict) da Fiocruz, lembrando os bloqueios em Wuhan, na China, e na região da Lombardia, na Itália. O estudo divulgado pela Fundação se baseou em dados sobre saúde da pesquisa Região de Influência das Cidades (Regic), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que identificou os deslocamentos intermunicipais da população que busca serviços de saúde e agrupou as cidades em regiões.

De acordo com a análise da Fiocruz, na primeira semana estudada (27/03 a 02/04), a doença havia chegado a 158 regiões brasileiras (20,8%), número que saltou para 542 (71,5%) na segunda semana (17/04 a 23/04). Entre as 76 regiões que somam mais de 500.000 habitantes, 100% já registram casos e 88,2% contabilizam mortes causadas pela covid-19. Mas a pandemia agora se mostra em ritmo crescente também em municípios com populações bem menos numerosas. A expansão da Covid-19 foi percebida em 68,4% das regiões de 50.000 a 100.000 habitantes, e em 48,4% das que concentram 20.000 a 50.000 habitantes. Antes, só havia casos confirmados em 15,8% e 7,3% dessas regiões, respectivamente.

A grande preocupação aponta para a questão da carência de leitos de UTI em uma doença, na qual se sabe que cerca de 5% dos infectados necessitarão de assistência intensiva.  O estudo destaca que 50% das regiões de até 100 mil habitantes não têm leitos de unidades de terapia intensiva e, quando considerada a presença de respiradores nos serviços de saúde públicos, as cidades menores também ficam atrás das maiores. O estudo considerou os números de respiradores de cada cidade em dezembro de 2019 e comparou com a população contabilizada pelo IBGE naquele período. Enquanto as regiões com mais de 500.000 habitantes têm, em média, quase 20 respiradores no Sistema Único de Saúde (SUS) para cada 10.000 habitantes, entre as regiões de 20.000 e 100.000 habitantes este número gira em torno da metade. Outro ponto importante ressaltado pela Fiocruz foi a necessidade de discutir as medidas de isolamento e afrouxamento de forma conjunta, já que a circulação em uma cidade da mesma região pode fazer com a doença volte a um município.

Por VEJA

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