Como o ministro da Saúde se tornou alvo de Bolsonaro

Em meio à maior pandemia do século, quais são os temores e conflitos de Luiz Henrique Mandetta que tenta se equilibrar entre a ideologia e a ciência.

O dia do “fico” de Luiz Henrique Mandetta começou com uma videoconferência e terminou com lamentos de frustração. Era manhã da quarta-feira 25, e o ministro fora desautorizado de forma constrangedora pelo presidente da República na noite anterior, quando Jair Bolsonaro fez um pronunciamento à nação negando a necessidade de isolamento social como forma de conter o avanço do novo coronavírus.

Ao contrariar publicamente a orientação mais premente de seu ministro da Saúde, o presidente abriu uma vala de distanciamento com Mandetta e colocou-o entre a cruz e a espada. Se ficasse no governo, estaria sujeito a um chefe que o diminuía diariamente. Se saísse, deixaria a pasta à mercê da ala mais radical do bolsonarismo, que enxerga na paralisação provocada pela pandemia um obstáculo à reeleição do presidente em 2022.

Mandetta optou por ficar. Permaneceram também as divergências com o presidente. Na noite desta quinta-feira (2), Bolsonaro disse que nenhum de seus ministros é ‘indemissível’ e que ‘falta humildade’ a seu ministro da Saúde. Ao ser questionado sobre as declarações do presidente, Mandetta disse que está trabalhando e não viu a entrevista.

Naquela quarta-feira, na entrevista diária que concede à imprensa para divulgar os números da doença, o ministro tentou distensionar a relação com o presidente e, para isso, flexibilizou a recomendação de isolamento que Bolsonaro tanto criticava. Depois de sua fala colocando em xeque o isolamento, Mandetta foi bombardeado por ligações de aliados e técnicos da saúde.

Ainda muito ligado à classe médica de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, ele tem o mesmo número de celular desde quando atendia em consultório. Também permanece em grupos de WhatsApp dos quais fazia parte antes de virar ministro. Nesses grupos, foi duramente criticado. Cobravam dele uma defesa mais enérgica das medidas de isolamento social, conforme as diretrizes das principais autoridades sanitárias do mundo. Sua mulher, Terezinha, médica em um hospital público de Brasília, é também defensora da política de isolamento — e usou a hashtag #ficaemcasa justamente ao publicar uma foto do casal. Em uma postagem, o deputado federal Fábio Trad (PSD-MS), primo de Mandetta, fazia um apelo para que o ministro não abandonasse suas convicções. “Fique com a ciência. Se isto lhe custar o ministério, paciência. Sangue não vira água!”, escreveu o político em sua conta no Twitter.

As cobranças surtiram efeito. Mandetta recuou da retórica presidencial e, no sábado pela manhã, se dirigiu ao Palácio da Alvorada para uma reunião com ministros e Bolsonaro. Lá, informou ao presidente que teria de “endurecer” o discurso para que as pessoas permanecessem isoladas. Caso contrário, todos assistiriam a milhares de mortes de infectados pela Covid-19. Deu ainda uma reprimenda no presidente, em tom cordial, mas sério. Disse que, quando Bolsonaro sai às ruas para se encontrar com o povo ou diz que o brasileiro “pula no esgoto” e “não acontece nada”, está desautorizando seu ministro da Saúde.

E avisou: quando houvesse pronunciamentos desse tipo, ele teria de divergir do próprio chefe.

*Com informações da ÉPOCA

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