Combustíveis em Manaus aumentam quase 400% durante pandemia

Enquanto na refinaria, a gasolina sai a R$ 0,91 centavos, na maioria dos postos de Manaus os preços variam entre R$ 4,25 e R$ 4,35

O preço do litro da gasolina na refinaria da Petrobras chegou a R$ 0,91 centavos na terça-feira (21). Uma redução que, neste ano, já chega a 52,3%. Contudo, nas bombas de Manaus, o litro da gasolina comum se mantém acima dos R$ 4,00. Consumidores reclamam dos altos preços e economistas afirmam que o maior problema é a falta de concorrência e competitividade no setor.

Os novos cortes ocorrem diante de uma persistente queda nos preços do petróleo e de seus derivados no mercado internacional, por impactos do novo coronavírus sobre a economia global. Entretanto, mesmo com essa redução na refinaria, na maioria dos postos de Manaus o litro custa R$ 4.35, valor que é hoje 378% maior do valor vendido pelas refinarias.

Rosilene Araújo, 38 anos, afirma que os preços absurdos que gasta com combustível são um desrespeito com ela e com o restante da população. “Já estamos sofrendo com a questão da pandemia, sabemos que muitos precisam de dinheiro para se sustentar e, mesmo assim, os empresários não têm sensibilidade. Eles dificultam cada vez mais a economia dos trabalhadores”, declara.

Segundo ela, quando essa redução não é verificada nos postos, os consumidores são os que mais têm prejuízo. “Imagine quem está precisando trabalhar com entregas e serviços de delivery ou quem é motorista de aplicativo. Eles devem estar tendo diversos problemas com esse preço absurdo no valor da gasolina”, evidencia.

Waldick Araújo, 50 anos, além de consumidor, também trabalha em uma empresa de transportes e revela que uma de suas maiores revoltas é – não só o preço do combustível – mas a qualidade desse produto. “O pior de tudo é quando você percebe que aquela gasolina não vale o valor que você pagou. Você imagina que determinada quantidade vai rodar tantos quilômetros e descobre que ela não chega nem a 70% do esperado. Ou seja, você paga caro e ainda corre o risco de comprar uma mistura que não rende”, denuncia.

Kelly Oliveira, 34 anos, é gestora de RH em uma empresa que compra combustível da refinaria para vender nos postos do interior do estado do Amazonas. Ela conta que o valor acaba chegando mais caro ao consumidor, porque existem diversas etapas para o combustível chegar até ele.

“No caso da minha empresa, depois de comprar da refinaria, teremos o custo com o transporte (nos cobram R$ 0,25 centavos por litro para transportar na balsa), depois temos que lidar com impostos (de renda e de contribuição social) e licenças, que geralmente são caras. Nesse sentido, o lucro que conseguimos vai para o pagamento dos funcionários e para a manutenção dos negócios”, explica Kelly.

A gestora revela que seu chefe optou por parar os negócios por um tempo desde que a pandemia começou, pois estava observando um grande prejuízo ao vender para os postos. De acordo com Kelly, a falta de competitividade no mercado também é um problema que a afeta a empresa em que ela trabalha.

Um mercado sem concorrência

O economista Wallace Mairelles esclarece que é evidente que a queda no preço do barril de petróleo internacional deveria refletir no preço que os consumidores pagam nos postos. Contudo, segundo ele, existem vários fatores que impedem que isso aconteça.

“Se por um lado houve uma redução na refinaria, por outro, a taxa de câmbio vem se desvalorizando rapidamente no Brasil. É ela que influencia, pois o preço do petróleo é cotado em dólar. Se temos uma valorização do dólar e uma desvalorização do real, por conta da instabilidade política, econômica e social que o país vive, é óbvio que sairemos prejudicados nesse sentido”, detalha o economista.

Meirelles afirma, no entanto, que o maior e principal problema é a falta de concorrência no setor, isso gera preços absurdos que nunca parecem reduzir. “A própria cadeia produtiva é feita de grandes monopólios e oligopólios. Existe pouca concorrência e se não há competitividade é muito fácil empresas se reunirem para criar cotas, preservando seus negócios”, explica.

De acordo com o economista, em sua área de trabalho, esse processo é chamado de cartel. Nele, os preços são horizontais e a diferença entre eles é mínima. “Para resolver isso, somente estimulando a concorrência. Cadê o governo federal, que postula que o mercado deve ser livre e competitivo? Gostaria muito que os políticos e órgãos responsáveis fosse mais atuantes”, ressalta.

O deputado estadual e economista Serafim Corrêa (PSB), concorda com Meirelles ao dizer que todo o sistema de distribuição é cartelizado. “A Petrobras vende para oito distribuidoras e estas fidelizam os postos. Aqui em Manaus, 50% dos postos estão na mão de uma única distribuidora. O que está faltando é competição”, diz.

Petrobras

A assessoria da Petrobras explicou como ocorre a composição de preços ao consumidor. Segundo informações, o mercado da gasolina no Brasil hoje é regulamentado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e pela Lei Federal 9.478/97 (Lei do Petróleo). “Esta lei flexibilizou o monopólio do setor petróleo e gás natural, até então exercido pela Petrobras, tornando aberto o mercado de combustíveis no país. Dessa forma, desde janeiro de 2002 as importações de gasolina foram liberadas e o preço passou a ser definido pelo próprio mercado”, esclarece.

A Petrobras ressalta que, ao abastecer o veículo no posto revendedor, o consumidor adquire a gasolina “C”, uma mistura de gasolina “A” com Etanol Anidro. A proporção de Etanol Anidro nessa mistura é determinada pelo Conselho Interministerial do Açúcar e do Álcool (CIMA), podendo variar entre 18% e 27%, através de resoluções.

Segundo a assessoria, o preço que o consumidor paga no posto pela gasolina C, além dos impostos e da parcela da Petrobras, também estão incluídos o custo do Etanol Anidro (que é fixado livremente pelos seus produtores) e os custos e as margens de comercialização das distribuidoras e dos postos revendedores.

“O preço nos postos revendedores pode ser alterado sem que tenha havido alteração na parcela do preço que cabe à Petrobras. Temos ingerência apenas sobre uma parcela na formação do preço final ao consumidor, que é representada pelo valor nas suas refinarias”, encerra.

*Reportagem ─ Maria Eduarda Oliveira/Em Tempo

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