Cacique Raoni recebe alta médica após ser curado da Covid-19

Raoni ficou internado durante uma semana no hospital Dois Pinheiros, na cidade de Sinop (MT).

O cacique Raoni Metuktire venceu mais uma de tantas batalhas que já travou na vida ao longo de seus 90 anos. Dessa vez, um dos maiores líderes indígenas do mundo derrotou o novo coronavírus e recebeu alta médica nesta sexta-feira (04), após ficar internado durante uma semana no hospital Dois Pinheiros, na cidade de Sinop (MT), a cerca de 300 quilômetros de sua aldeia, na Terra Indígena Capoto/Jarina ao Norte de Mato Grosso.

“Graças à natureza, graças a Deus, graças a nossa Iprēre (Deus para os Kayapó), graças à medicina tradicional e medicina ocidental, vovô Raoni está bem agora”, escreveu em sua página no Facebook, Patxon Metuktire, sobrinho-neto de Raoni, sobre a alta médica do cacique.

Mas antes de voltar em definitivo para o seu território, Raoni ainda passará por uma revisão médica, na próxima terça-feira (08), devido a uma inflamação no coração – sequela que foi deixada pelo novo coronavírus. É por isso que do hospital Dois Pinheiros ele foi hospedado em um quarto de hotel na cidade de Colíder, que fica mais próxima de Capoto Jarina, a cerca de 200 quilômetros da TI.

Ele terá uma consulta como uma médica cardiologista para saber como seu organismo respondeu aos remédios que combatem a inflamação no coração. Edson Araceli Santini, o coordenador geral do Instituto Raoni, explicou que o procedimento é importante para saber qual tipo de estrutura médica será montada na aldeia, depois que Raoni voltar para lá.

Em relação à Covid-19, Edson Araceli Santini disse que o líder dos Kayapó já criou os anticorpos contra a doença, e que está recuperado. “Mas o problema é que o vírus deixou essa sequela no coração, e a estrutura que será montada na aldeia vai ser pensada mais nesse sentido, dele ter alguma crise cardíaca, por causa da inflamação no coração”, enfatizou o coordenador do Instituto Raoni.

De acordo com o boletim do Hospital Dois Pinheiros, divulgado nesta sexta-feira (04), a equipe médica decidiu pela alta após o cacique apresentar melhora em seu quadro clínico. O boletim apontou “estabilidade no quadro pulmonar, após realização de tomografia computadorizada de tórax”. O boletim também revelou que o último ecocardiograma também indicou “melhora na arritmia sem novas complicações”.

“Ele passou a noite bem e saiu em bom estado do hospital, vamos continuar em contato com a equipe médica que atende no Xingu. Passamos orientação para o acompanhamento clínico e controle cardiológico”, explicou o médico Douglas Yanai, um dos profissionais que assina o boletim.

Essa é a segunda vez que o grande líder dos Kayapó é internado nesse mesmo hospital. Dessa vez ele foi diagnosticado com duas pneumonias, em um período de duas semanas, e, a partir de exames mais complementares foi constatada a Covid-19.

“Ele passou inicialmente por exames laboratoriais e de imagem que indicaram Covid-19, já na fase inflamatória da doença. O diagnóstico foi confirmado por meio do exame RT-PCR positivado para Sars-Cov2. Foi tratado com anticoagulante, corticoide e antibióticos de acordo com o protocolo do hospital”, detalhou o hospital Dois Pinheiros, por meio da assessoria.

Já a primeira internação ocorreu em 16 de julho e foi provocada por problemas de anemia, gastrointestinais e uma hemorragia.

O médico Douglas Yanai disse que esse primeiro adoecimento foi uma mistura de acontecimentos, e também teve relação com a morte da mulher, Bekwykà Metuktire, em 23 de junho. “[O falecimento] gerou esse quadro de tristeza profunda do cacique. Ele tem tido uma alimentação bastante irregular por causa desse quadro de tristeza e se agravou com as úlceras que ele tem. Ele fez sangramento digestivo baixo, além de sangramento pelas úlceras que acabaram se agravando ao longo da semana”, explicou o médico.

Transmissão comunitária na aldeia

A aldeia de Raoni é um dos locais com transmissão comunitária da Covid-19 em Capoto/Jarina. A neta do cacique, Mayalú Kokometi Waurá Txucarramãe, informou à Amazônia Real que uma equipe de resposta rápida do Dsei [Distrito Sanitário Especial Indígena] Kayapó Mato Grosso, está desde o início desta semana na aldeia fazendo testes e dando suporte a equipe médica local.

Segundo ela, a equipe fez testes nas pessoas que apresentaram sintomas como resfriado forte. “Até o momento, oito testaram positivo em Metuktire”, disse Mayalu à reportagem, em resposta enviado pelo WhatsApp.

Em Capoto/Jarina, além de Metuktire, Megaron Txucarramãe, outra liderança Kayapó, ressaltou que outras três aldeias também estão com transmissão comunitária da Covid-19: Kaweretiko, Bytire e Tonhore. Desde o diagnóstico em Raoni, a equipe do Dsei tem atuado forte na região, para fazer o mapeamento dos infectados, isolá-los, evitando assim que o vírus se dissemine para as demais localidades da terra indígena.

De acordo com a Rede Xingu+, que congrega as comunidades indígenas do chamado corredor cultural e ecológico da bacia hidrográfica do Rio Xingu, em Capoto/Jarina e na TI – Menkragnoti, no sudoeste do Pará, também pertencente aos kayapós – há 3 mortes e 165 casos confirmados de Covid-19. O levantamento é de quarta-feira (2) e foi feito com base nos dados do Dsei Kayapó do Mato Grosso.

Fonte: Amazônia Real

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