Brasil agora queima dinheiro que imprimiu para o Haiti após terremoto

Eram 16h53 de 12 de janeiro de 2010, horário de Porto Príncipe, e 19h53 no Rio de Janeiro, quando um terremoto devastou o Haiti. As Nações Unidas estimaram que 220 mil pessoas morreram. Entre as vítimas estavam 21 brasileiros, sendo 18 militares que integravam a tropa da Missão da ONU para a Estabilização, a Minustah, na sigla em francês. Foi a maior baixa do Exército desde a Segunda Guerra Mundial.

O Exército estava no Haiti desde 2004, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou uma tropa chefiada pelo general Augusto Heleno Ribeiro, um militar influente nos bastidores das Forças Armadas, para chefiar a missão da ONU, composta ainda por contingentes menores de outros 21 países. A política externa do governo apostava que o deslocamento de soldados e oficiais era um passo para obter um assento no Conselho de Segurança, colegiado mais influente das Nações Unidas.

A cúpula militar logo avaliou que só botinas e fuzis não resolveriam o problema do Haiti. O país dependia de dinheiro externo para se recuperar de uma crise de décadas, que arruinou sua economia e jogou a população de 10 milhões de pessoas na miséria.

Pelo menos a presença do Exército no Caribe alavancou a carreira de uma geração de generais que cresceu na redemocratização, sem ver uma guerra. Augusto Heleno virou mais tarde ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do governo de Jair Bolsonaro. Outros comandantes da Minustah também ganharam projeção política na volta ao Brasil. José Elito foi nomeado para o GSI no governo Dilma Rousseff, Carlos Alberto dos Santos Cruz e Floriano Peixoto ocuparam os cargos de ministros da Secretaria de Governo e da Secretaria-Geral no mandato de Bolsonaro. Já Luiz Eduardo Ramos é o atual ministro da Secretaria de Governo e Edson Pujol ocupa hoje o comando do Exército.

Uma semana depois do terremoto, ainda em janeiro de 2010, o governo Lula anunciou uma ajuda de R$ 35 milhões para socorrer os atingidos pela catástrofe.

A 25 de fevereiro, Lula visitou Porto Príncipe e ofereceu ao presidente haitiano, René Préval, o perdão de sua dívida com o Brasil e prometeu outras formas de ajuda. A produção de gourdes, a moeda do país, era uma delas.

Em novembro, a Casa da Moeda do Brasil anunciou que fabricaria cédulas da moeda haitiana. Não havia mais dinheiro circulando nas ruas e nos comércios do país caribenho.

Lula deixou o poder em janeiro de 2011. Meses depois, em maio, a nova presidente Dilma Rousseff conseguiu aprovar no Congresso projeto de lei que autorizou a Casa da Moeda a doar cem milhões de cédulas de 20 gourdes ao Banco da República do Haiti. A instituição, sediada no Rio de Janeiro, ficaria responsável também pelo transporte do dinheiro até Porto Príncipe. A despesa não podia passar de R$ 4,8 milhões.

Um navio fretado pela Casa da Moeda zarpou no dia 28 de outubro de 2013 do Rio de Janeiro rumo do Caribe com 47,4 milhões de cédulas, quase metade da doação prevista. O Haiti agora era chefiado por Michel Martelly.

Mas, semanas depois, a direção da Casa da Moeda interrompeu a produção das cédulas restantes por estourar o limite do gasto com os gourdes.

A 9 de julho de 2014, uma Medida Provisória ampliou a despesa com a produção das cédulas de R$ 4,8 milhões para R$ 9 milhões. Mas faltou uma regulamentação para liberar, de fato, o aumento do gasto.

Em 2017, o presidente Michel Martelly deixou o poder depois de eleger seu sucessor, Jovenel Moise. Se no Brasil, o escândalo do petrolão e a Operação Lava Jato contribuíram decisivamente para a queda de Dilma Rousseff, no Haiti, surgiu o caso do petrocaribe. O esquema de corrupção no programa de fornecimento de petróleo subsidiado da Venezuela envolvia o grupo de Martelly e Moise. O Senado haitiano estimou que US$ 2 bilhões sumiram.

No mandato do presidente Michel Temer, substituto de Dilma, o lote de 63,7 milhões de cédulas de gourdes – 11,1 milhões a mais do que o previsto na doação – ainda restantes continuou inacabado num canto da Casa da Moeda. Faltavam camadas de tinta e fios de garantia.

Uma onda de protestos agitou o Haiti no começo de 2019. Os manifestantes reclamavam de uma inflação na casa de 15% e da aceleração da desvalorização do gourde frente ao dólar. Houve mortes nas ruas.

Iniciado em 2019, o governo de Jair Bolsonaro levou um ano para constatar que as notas de 20 gourdes estavam em processo de deterioração na Casa da Moeda.

A 2 de dezembro de 2019, uma análise do Departamento Jurídico da Casa da Moeda detectou que as cédulas deterioradas não poderiam ser recuperadas. A direção do órgão decidiu incinerar o lote.

Em janeiro de 2020, a Casa da Moeda iniciou a queima das cédulas inacabadas de gourdes. Cada nota incinerada de 20 gourdes correspondia a US$ 0,50 quando começou a ser fabricada. Foi para o fogo valendo menos da metade desse valor, US$ 0,20.

fonte | ESTADÃO CONTEÚDO

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