Africanos mantêm tradição e dominam o pódio da São Silvestre, em São Paulo

Etíope Belay Bezabh vence a prova masculina da São Silvestre. (Foto: Edilson Dantas)

A tradição das últimas décadas na mais tradicional corrida de rua brasileira se manteve no último dia do ano de 2018. Pelotões de atletas estrangeiros dominaram o pódio da 94ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre, na manhã desta segunda-feira, em São Paulo. Na prova masculina, o vencedor pela primeira vez foi Belay Bezabh, da Etiópia, depois de percorrer 15 km de prova em 45min05s, sob sol latente.

Com físico miúdo e seco, Belay tirou o tênis na chegada e, com pés no asfalto, encharcou-se de água antes de deixar a pista. Andava de um lado ao outro, insinuando disposição para mais uma volta. Minutos depois, despencou na sala de entrevista coletiva e precisou ser socorrido por paramédicos (levado ao hospital, ele passava bem no início desta tarde, segundo a organização). Primeiro no ano passado, o também etíope Dawit Admasu chegou 3 segundos depois do conterrâneo; dessa vez, ficou em segundo. Os dois disputaram o primeiro lugar do início ao fim.

Na prova feminina, a vitoriosa foi Sandrafelis Chebet, do Quênia, de 20 anos, que percorreu o trajeto em 50min02s. Todos os lugares do pódio foram ocupados por africanas: a segunda foi a também queniana Pauline Kamulu; a terceira, a etíope Mestawut Truneh; a quarta, a queniana Esther Kanuri; a quinta, a etíope Birthukan Alemu.

Atleta do Esporte Clube Pinheiros, Jenifer do Nascimento Silva, de 27 anos, foi a brasileira melhor colocada — ficou em oitavo lugar. Atribuiu o sucesso das concorrentes à “genética” e à estratégia de treino:

— Elas sempre correm todas juntas na prova, treinam juntas também no exterior, isso dá uma força pra elas. A pancada de arrancada delas também é um diferencial. Pra gente que não está muito acostumado, é sempre mais difícil. Nossa estratégia é sair (com ritmo mais) fraco e tentar crescer na prova, mas, dessa vez não deu — lamentou.

Giovani dos Santos também ficou em oitavo lugar — melhor colocação entre brasileiros na prova masculina. Ele largou com o pelotão de 15 atletas que dominaram o início da prova, mas, com o passar do tempo, o grupo foi se reduzindo, até que se restringisse aos africanos. O último ano em que um brasileiro venceu a prova masculina foi em 2010 — a feminina, em 2006. Para que este cenário mude, o atleta cobra comprometimento do país com o esporte:

— O Brasil está precisando de mais apoio para treinamento, a gente tem pouco apoio. Era preciso fazer um trabalho com os cinco melhores atletas brasileiros, tanto do masculino quanto do feminino, para chegarmos na São Silvestre e fazermos melhor. Por que os africanos sempre estão na frente? Os caras sempre treinam juntos, sempre estão correndo juntos. Isso faz diferença.

O terceiro lugar na prova masculina foi o etíope Amdework Tadese; o quarto, Emmanuel Gisamoda, da Tanzânia; e o quinto, o ugandense Maxwell Rotich.

QUASE PADEDÊ

Para milhares de corredores amadores que ocupavam seis quarteirões da Avenida Paulista, a largada da São Silvestre é um caos. Esportistas de fim de semana disputam espaço com atletas mais assíduos e também gente que busca os cinco segundos de fama na tela da Globo. Havia índio, duende, fada, garçom, cangaceiro, super-herói e dançarino de frevo. Santos Dumont, Lula livre, o Mito, Tiririca, São Judas Tadeu e Ayrton Senna.

Antes da corrida, os competidores do grupo principal se aqueciam e corriam em círculos em área separada dos cerca de 30 mil inscritos para correr a prova de rua, como se, para eles, a prova começasse uma hora antes. Hipnotizado, o público na grade fitava os movimentos do improvável balé dos atletas de elite: pernas e braços eram lançadas ao alto, corridas de lado, saltos para a frente, saltos curtos de saci, calcanhar batendo no bumbum e  quase padedê.

Corredores com deficiência largaram logo atrás do grupo — muitos deles com acompanhantes, dispostos a correr pelo outro, antes de correr por si. Compartilhavam entre si algumas dicas: quando as costas doem, o segredo é curvar o tronco para frente; se a perna começa a doer, vale reduzir o ritmo.

— Vinicius apareceu há sete anos na academia, fazia dois minutos de esteira e pedia pra ficar mais. Dava pra ver que tinha jeito, daí em diante foi só treino — contou o personal trainer Robson Sampaio, de 40 anos, que acompanhava o cego Vinícius Alves, de 27.

Completaram neste ano a terceira São Silvestre da vida, em 2h12min. O tempo foi um pouco pior que o do ano passado, “culpa do sol forte”, segundo Vinícius. Para Robson, não havia outra opção:

— Só dava pra ir embora hoje com a medalha no peito.

Os melhores no masculino:

1º — Belay Bezabh (Etiópia) — 45m05s

2º — Dawitt Adamsu (Bahrein) — 46m06s

3º — Amdework Tadese (Etiópia) — 45m13s

4º — Emmanuel Gisamoda (Tanzânia) — 45m23s

5º — Maxwell Kortech Rotich (Uganda) — 45m45s

As melhores no feminino:

1º — Sandrafelis Tuei (Quênia) — 50s02

2º — Pauline Kamulu (Quênia) — 50s19

3º — Mestawut Truneh (Etiópia) — 52s45

4º — Esther Kakuri (Quênia) — 52s47

5º — Birthukan Alemu (Etiópia) — 53s06

Fonte: Agência O Globo

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here