A solidariedade resiste

Num mundo de incertezas sobre o futuro, movido pelo individualismo e pelo consumismo, com a certeza da insatisfação permanente, com amores instantâneos, com angústia sobre o que fazer da vida, é muito raro encontrar pessoa que dá amor de coração ao próximo, que pratica bondade no cotidiano e que luta por causas coletivas. Mas existe, existe sim.
Há cerca de oito meses, em um sábado, eu estava podando minhas plantas e carregando terra para adubá-las, não vestia nada além de uma camiseta “surrada” sem mangas e uma bermuda antiga, até sem a cor original do tecido. No meio do trabalho, deu fome, já se passava do meio dia, lavei as mãos, calcei umas sandálias menores que os meus pés, uma relíquia deixada por minha ex-esposa, e fui procurar um lugar próximo de casa para comer. Confesso que estava um pouco sujo, na verdade, muito sujo.

Caminhei até o restaurante Paraíba &Pernambuco, na área central do bairro do Parque Dez, entrei, olhei as variedades de comidas expostas numa mesa grande, sentei num cantinho, queria primeiro tomar água. Aguardei o atendente para fazer o meu pedido. Na mesa ao lado estava uma senhora, cabelos louros, sorriso cativante, seios volumosos, vestia uma roupa sensual bastante chamativa.

Ela não parava de olhar e de sorrir pra mim. Pensei comigo: será que encontrei um grande amor, um amor marcante, um amor demasiadamente humano, um amor que reencante a vida e que acabe com a mesmice e com o tédio em que eu vivo, pois estava vivendo uma vida de homem santo, mas sempre achei chata e sem encantos.

A loura levantou-se e veio em minha direção. Em pé, ela era mais linda do que minha imaginação pôde alcançar. Chegou, pegou nas minhas mãos, e, com carinho, disse: “senhor, não fique chateado, mas pedi um tambaqui grande e não consegui comer tudo. O senhor pode tomar a coca-cola que também está pela metade. Pode ficar com tudo, assim você não precisa pedir comida de ninguém.” Claro que depois daquelas palavras a minha autoestima chegou a zero e fiquei com vontade de dizer alguma coisa impublicável.
Mas logo a “ficha” caiu e me dei conta que estava diante de uma pessoa rara e era muito mais belo o seu gesto do que a sua presença física. Refleti e fiquei pensando que aquela senhora pertencia a um exército, não militar, mas humanitário, que, no Brasil e no mundo, dedica-se a dar comida aos moradores de rua e aos pobres. Ajuda doentes crônicos em hospitais ou em abrigos, crianças portadoras de alguma deficiência, mulheres vítimas de agressões, idosos abandonados e outros. Um exército invisível e sem remuneração financeira que dá amor ao próximo e aos excluídos do nosso atual modelo econômico e social.

Pois bem, agradeci toda a delicadeza e aceitei a metade do peixe, a coca-cola não aceitei porque tenho açúcar demais no meu sangue, e, neste momento, lembrei-me da minha origem pobre. Uma página desbotada, mas não esquecida da minha vida, na qual até a inscrição do vestibular da Ufam, no qual fui aprovado, foi doação de um amigo simples. Uma fase bastante difícil pra minha família.

Depois retornei ao meu jardim, que tanto me faz bem, com a convicção de que posso cuidar, não só da minha família, mas também, daquelas pessoas carentes que vivem neste mundo, onde a solidariedade e o amor ao próximo são gestos de coragens.

»»» Carlos Santiago – *Sociólogo, Analista Político e Advogado «««

 

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