A brasileira por trás da foto de Auschwitz que viralizou

Imagem: Marina Amaral/Auschwitz Memorial
Imagem: Marina Amaral/Auschwitz Memorial

A polonesa Czeslawa Kwoka foi uma das centenas de milhares de crianças assassinadas pelo regime nazista. O registro de sua chegada ao campo de extermínio de Auschwitz, em dezembro de 1942, mostra uma menina de olhar assustado, cabelos grosseiramente cortados e ferimentos nos lábios causados por um guarda momentos antes de ser fotografada.

A imagem, originalmente em preto e branco, é ainda mais impactante quando vista colorida, graças ao trabalho da brasileira Marina Amaral, que colore digitalmente fotografias antigas com uma precisão acurada e tons realistas. Para a artista, a colorização da foto de Kwoka fez com que a garota se mostrasse um ser humano real: “Uma menina de 14 anos, e não uma mera estatística”.

Nos últimos dias, a imagem colorida da adolescente polonesa viralizou nas redes sociais ao ser compartilhada pelo Museu de Auschwitz-Birkenau, instalado na Polônia, onde um dia abrigou o maior campo de extermínio nazista. Desde a semana passada, quando foi publicada no Twitter, a postagem foi curtida por quase 45 mil pessoas e compartilhada mais de 11 mil vezes.

Em entrevista à DW Brasil, Amaral conta que escolheu a foto de Kwoka para colorir porque foi impactada pela expressão no rosto da menina. “Quando a vi pela primeira vez, não consegui mais esquecê-la. Quis humanizá-la e contar a história dela”, lembra.

Mas a repercussão da imagem nas redes sociais foi uma surpresa, afirma a artista, que ganhou destaque na imprensa internacional ao longo da última semana. “Foi completamente surpreendente, recebi mensagens do mundo inteiro. Fiquei muito feliz quando percebi que as pessoas entenderam o recado e se sentiram da mesma forma que eu.”

Colorindo imagens em preto e branco

Amaral começou a usar o Photoshop de forma despretensiosa ainda criança. Anos depois, em 2015, ao se deparar com uma coleção de fotos da Segunda Guerra Mundial em cores num fórum de história online, resolveu tentar experimentar a técnica.

“Comecei a praticar sem ter muita ideia de qual caminho seguir, e não parei mais. Desde então, consegui desenvolver as minhas próprias técnicas. Eventualmente, sem que eu esperasse, isso se transformou na minha carreira”, conta a artista autodidata.

O processo de colorização de imagens é feito inteiramente no Photoshop, de forma manual, e pode durar semanas. “O tempo varia bastante. Enquanto um retrato simples pode ser feito em 40 minutos, uma foto mais complexa e cheia de detalhes pode levar até 40 dias”, explica.

Segundo Amaral, 98% das fotos que ela utiliza são de domínio público, disponibilizadas por órgãos governamentais, bibliotecas, museus, entre outras entidades. O restante das fotografias é cedido por colecionadores, historiadores ou instituições.

Na hora de escolher as imagens, a artista leva em consideração também o impacto visual que a foto vai causar, mas é o contexto histórico da fotografia o fator determinante. “Infelizmente eu fico um pouco limitada, porque existem temas que eu adoraria explorar, mas simplesmente não encontro as fotos nas condições que eu preciso, em domínio público e em alta resolução.”

Segundo Amaral, é por essa razão que seu portfólio conta com pouquíssimos registros relacionados à história brasileira. “Eu adoraria fazer uma série sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Recebi um material bem interessante há pouco tempo, e estou conversando com algumas pessoas para tentar tirar essa ideia do papel”, antecipa.

O trabalho de Amaral envolve principalmente imagens da primeira metade do século passado, quando a fotografia colorida ainda dava seus primeiros passos. Além de eventos históricos como o Holocausto, ela colore ainda retratos de personalidades como Martin Luther King, o ex-presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln e o físico alemão Albert Einstein.

Um de seus trabalhos mais recentes foi na Alemanha: uma série de fotos antigas retratando dez momentos importantes da história do futebol alemão. As imagens em preto e branco foram exibidas pela primeira vez em cores em uma exposição no Museu Alemão do Futebol, em Dortmund.

Escolha rigorosa das cores

A colorização de fotos em preto e branco não é uma novidade. Hoje, há centenas de tutoriais na internet, fóruns com dezenas de milhares de inscritos e até um algoritmo que faz o trabalho sozinho. Mas, para Amaral, “colorir imagens antigas não é apenas um hobby, é uma obsessão”, afirmou a revista americana Wired, que chamou a brasileira de “mestre da colorização”.

Antes de começar a pintura, ela conduz um rigoroso processo de pesquisa para deixar as cores o mais próximo possível da realidade. Para isso, conta também com a ajuda de historiadores e especialistas, que analisam os detalhes mais relevantes da foto – das roupas aos elementos de decoração.

“A pesquisa é a parte mais importante do processo, pois essas fotografias são documentos históricos, e eu tenho que respeitar o máximo de características possíveis”, explica a artista. Há casos, como certas localizações, uniformes militares e medalhas, em que é possível reproduzir as cores exatas, usando como fonte descrições visuais feitas em jornais da época, documentos ou livros.

A apuração para a colorização da foto da menina Kwoka, por exemplo, se baseou em dois detalhes: a cor dos uniformes utilizados pelos prisioneiros em Auschwitz e a do triângulo colado na vestimenta. “Esses triângulos podiam ser de várias cores, porque eram usados para identificar cada prisioneiro de acordo com o grupo a que ele pertencia”, conta Amaral. No caso da adolescente, o triângulo era vermelho, indicando que ela era uma prisioneira política, e trazia a letra P, de polonesa.

Projeto sobre o Holocausto

Kwoka, que não era judia, foi deportada da região de Zamosc, no sudeste da Polônia, e enviada a Auschwitz pelo regime de Adolf Hitler. Ela chegou ao campo nazista em 13 de dezembro de 1942 ao lado de outras 318 mulheres, incluindo sua mãe, Katarzyna, que morreria dois meses depois. A menina de 14 anos foi assassinada em 12 de março de 1943 com uma injeção letal no coração.

“A foto de Czeslawa é, com certeza, a foto mais importante que fiz até hoje”, afirma Amaral. “Quando recuperei as cores do rosto dela, consegui mostrar o sangue no lábio inferior cortado, as marcas, o medo nos olhos.” O homem que fotografou Kwoka, o sobrevivente de Auschwitz Wilhelm Brasse, contou que a menina fora espancada por um guarda que se irritou porque ela não falava alemão.

Além dos judeus, cidadãos cristãos da Polônia também foram perseguidos pela Alemanha nazista. Estima-se que os alemães tenham sido responsáveis pela morte de ao menos 1,9 milhão de poloneses não judeus durante a Segunda Guerra Mundial, seja em batalhas ou campos de extermínio.

Com o impacto gerado pela foto de Kwoka, a artista teve a ideia de criar um projeto inteiramente voltado a recuperar histórias e fotos relacionadas ao Holocausto. O Museu de Auschwitz-Birkenau embarcou na proposta: vai disponibilizar seus arquivos e um grupo de pesquisa para auxiliar a brasileira na empreitada, que ainda não tem data para sair do papel.

Agora, Amaral se prepara para lançar seu primeiro livro, The colour of time (A cor do tempo, em tradução livre), que chega em agosto às livrarias europeias (ainda sem data no Brasil). Aobra– uma parceria com o escritor, historiador e apresentador de TV britânico Dan Jones – reúne 200 fotos restauradas por ela, cobrindo a história do mundo durante o período de 1850 a 1960.

“Eu e o Dan nos conhecemos pelo Twitter, e pouco tempo depois ele me fez o convite para criar o livro”, conta a brasileira. Autor de best-sellers, o britânico escreveu as legendas que explicam o contexto histórico de cada uma das imagens. “A maioria dessas fotos nunca foi vista em cores antes”, afirma Amaral.

Para a artista de Belo Horizonte – cidade onde mora até hoje, apesar da fama internacional –, seu trabalho tem o objetivo de aproximar as pessoas de uma realidade que ficou no passado.

“O fato de vivermos em um mundo tão repleto de estímulos visuais faz com que se crie uma conexão mais profunda quando vemos aquelas fotos em cores”, diz Amaral. “Assim, é mais fácil criar uma relação de empatia com os personagens históricos, e eles deixam de ter aquele aspecto de personagens de ficção que só existem nos livros.”

(Com informações da DW)

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