348 anos: a velha e a nova Manaus

Muita gente teve a oportunidade de conhecer um pouco da velha Manaus, aquela que ainda hoje sonhamos, e por alguns momentos – talvez, por uma fresta do tempo, acendendo e apagando – nossos olhos vagueiam como um pirilampo, brilhando na escuridão e clareando o pensamento, viajando na lembrança de um tempo que ficou pra trás.

A velha e saudosa Manaus das calçadas livres e casas com varanda; dos igarapés com águas cristalinas; das ruas calmas, tranquilas, onde a senhora Belle Époque desfilava suas riquezas, construindo suas mansões, seus casarões, suas pontes, onde o bondinho calmamente trafegava levando os desejos e os anseios de um lugar para o outro, sobre os trilhos que o progresso um dia ia apagar, como se fossem feitos de giz, riscados nas pedras de paralelepípedos que calçavam seu chão.

Ora, como não lembrar dessa velha Manaus? Quem viveu esse tempo sabe o quanto perdemos de qualidade de vida, simplesmente, por falta de respeito, de responsabilidade com a vida das pessoas, e principalmente por falta de amor com esse pedaço de chão. Como não cuidar de quem te dá guarida? Como não cuidar de quem abre os braços para que te aconchegues? Quando viras as costas para quem te deu a mão é porque o egoísmo é mais forte dentro de ti do que a solidariedade humana. E assim viraram as costas para ti, minha velha Manaus, para que a nova Manaus surgisse em meio a bancas e barracas, lonas e papelões. Que papelão!

A nova Manaus tem um brilho falso de bijuteria barata, vendida sobre as calçadas que traduzem esse tempo. As casas sem varandas estão agora umas sobre as outras, como túmulos, construídas sobre o concreto, onde era outrora um igarapé, e eles eram muitos, que, como artérias, pulsavam levando as águas por dentro da nossa cidade para refrescá-la, e, os que ainda existem estão agonizando sob o odor fétido de uma lamina d’água, escurecida pela poluição. As ruas viraram feiras a céu aberto, onde vozes, gritos, correria, sufocam a vida, e, logo a seguir, em cada esquina a violência tece o seu tapete, onde a senhora Zona Franca desfila suas riquezas, construindo e distribuindo miséria, com os seus casarões cheios de delinquências, com seus ônibus articulados, trafegando lotados de gente, feito sardinha em lata, levando ilusões e incertezas de chegar a algum lugar, enquanto o seu paraíso é construído em outro canto.

Ora, como não lembrar, nesse dia, dessa nova Manaus? Sabemos o quanto a amamos, e sofremos por vê-la assim. A queremos mais saudável, mais útil à vida, queremos mais respeito e responsabilidade, dos que podem fazer dela o melhor pra se viver. É preciso mudar os comportamentos, urgentemente, sim! É preciso resgatar as avenidas, ruas, calçadas, praças, que foram tomadas por uma desorganização generalizada, para que a população tenha direito de caminhar livre nos espaços a ela destinados.

É preciso conscientizar que a nossa cidade é cercada por uma natureza maravilhosa e bela, mas expulsaram a natureza de dentro dela.

A Velha e a Nova Manaus existem: uma na lembrança e a outra no real, mas são uma só. Vamos cuidar dessa Cabocla Morena que se banha, se vê e se refresca todos os dias, nas águas de um Negro Rio, e que temos o prazer de morar nela, de ter nascido nela, e viver por ela, e de cantar nesse dia tão especial, os parabéns pelos seu 348 anos.

*David Almeida – jornalista e escritor

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